É este o novo normal que todos falam?

Não, não vou escrever sobre o COVID e o tanto que o mundo mudou nos últimos meses.

No momento que escrevo estas linhas o mundo está em suspenso para saber quem é o próximo presidente dos Estados Unidos da América. Vamos continuar com um palhaço Trump ou vamos ter o mal menor?

Em vários estados americanos, a diferença de votos, é menos de 10.000 votos, isto em estados em que o total de votantes é superior a 3 milhões de pessoas. Outros locais – como Michigan, por exemplo – têm uma diferença de 1.200 votos depois de contados quase 5 milhões de votantes. Um estado em que, lembro, há umas semanas a sua governadora, Gretchen Whitmer, foi alvo de uma tentativa de rapto. A governadora viria a ser, mais tarde, criticada por Donald Trump numa conferência de imprensa em que este se recusou a criticar as acções dos raptores.

Tudo isto é, para mim, incrível. Depois dos últimos 4 anos em que tivemos um palhaço incompetente a governar a maior potência militar e financeira do mundo, observar que mais de 67 milhões de americanos (and counting) estão dispostos a votar neste indivíduo é… surreal. Pior do que isso, comparando o resultado de Trump hoje com o que teve nas primeiras eleições, vemos que existem mais 4 milhões de americanos – a somar aos 63 milhões de 2016 – que olharam para os últimos 4 anos e dizem: este gajo está a governar brilhantemente e merece o meu voto.

Tudo isto diz mais sobre nós, enquanto sociedade, do que estas pessoas de quem é esperado que nos liderem.

Elect a clown expect a circus

Eu não quero centralizar este post no que se passa nos Estados Unidos ou nestas eleições em particular. Não que não seja importante. Não que não nos afecte directamente – engane-se aquele que acha que o resultado das eleições americanas não tem qualquer efeito no seu dia-a-dia – mas sim porque quero abordar todo este fenómeno duma perspectiva global.

É que isto que nós vemos acontecer lá longe nos Estados Unidos, está longe de ser uma ocorrência singular. Se estivermos atentos vemos que a mesmas estratégias já foram aplicadas, com sucesso, no Brexit, por exemplo. Vemos o mesmo fundamentalismo acontecer no partido da Frente Nacional (agora rebaptizado para Reagrupamento Nacional?) de Marine Le Pen em França, com a Vox em Espanha, o Partido da Liberdade de Norbert Hofer na Áustria ou o Chega de Ventura e companhia em Portugal.

São movimentos que apelam ao nacionalismo bacoco, à retórica anti-emigração, ao euro-cepticismo.

São movimentos que de uma forma ou outra ganham tração, atraem temas fracturantes para provocar a discussão e apelam a uma franja da população que, desesperada por falta de soluções das políticas tradicionais, se revêm no populismo fácil.

A partir daqui, é fácil culpar os ciganos ou minorias de cor quando há problemas de segurança pública ou sugerir que pedófilos sejam castrados quimicamente quando notícias de violência sobre crianças ou menores abrem telejornais. Com isto obtêm-se dois resultados práticos: coloca-se a ideologia política que se defende na linha da frente – o lema é sempre, bem ou mal, interessa que falem de mim – e amealha-se mais uns quantos seguidores.

Quantos de nós não nos sentimos com a tentação de partir tudo quando confrontados com notícias que nos chocam ou que nos tocam no ágamo?

A normalização de comportamentos degradantes

Tudo isto nos leva a uma normalização grotesca de comportamentos menos dignos.

Há quatro anos era impensável pensarmos num Obama a mentir na TV. Trump é um mentiroso compulsivo. Boris Johnson, o primeiro-ministro do Reino Unido não lhe fica atrás – embora este tenha a vantagem de ter sido eleito primeiro-ministro sem ter ido a eleições livre.

Já ninguém se espanta quando um destes novos políticos diz ou faz coisas que não são normais.

  • Apelar à morte do adversário político? Feito!
  • Insultar um jornalista que faz uma pergunta difícil? Todos os dias.
  • Recusa em responder a um jornalista, advogado ou juiz? Sem problema.
  • Projectar os medos ou comportamentos errantes do próprio nos adversários ou nos outros? Sim, a estratégia é sempre desviar a atenção para os adversários políticos. No limite, arranja-se um tema controverso para desviar a atenção dos media de algo que nos atrapalha. “Podem falar mal, mas falam do que deixamos, não do que não nos interessa

Tudo isto é perigosíssimo e se não estivermos atentos e vigilantes, levará inevitavelmente a uma repetição da história. O partido Nazi, cuja existência oficial acontece logo após o fim da I Guerra Mundial, a primeira vez que se apresenta a eleições em 1928 – ignorando as duas eleições de 1924, com Hitler ainda na prisão e apresentando-se ainda como Movimento Nacional-Socialista – quando se apresenta às eleições em 1928, dizia, não obtém mais de 2.6%, menos de 1 Milhão de votos. Cinco anos depois Hitler ascende ao poder conseguindo cerca de 37% dos votos. Nesse momento acabaram as eleições livres na Alemanha e o que se segue é… história.

O que posso ou devo fazer?

Excelente pergunta. Não faço ideia.

Não é fácil combater a retórica fácil de uma aVentura que diz coisas que podem parecer senso comum aos mais distraídos.

  • Quem não quer mais segurança, quando aquilo que se apregoa nos incute medo constante?
  • Quem não quer pagar menos impostos quando todos os dias lemos e ouvimos falar de quão mal o estado gasta os nossos impostos (BES anyone)?
  • Quem não quer menos interferência do estado? Ou um estado mais eficiente?
  • Uma justiça mais firme?

O que me importa ressalvar com este post é que em vez de procurar descobrir como combater directamente estes ditadores wannabe, é perceber porque é que estes eleitores decidem que esta é a via correcta. Ou esta é a única via que eles vêm como correcta.

Caramba. Como é possível, depois destes 4 anos de Trump, 67 Milhões de Americanos votarem no homem? Recuso-me a aceitar que 67 Milhões de Americanos são estúpidos. Como é possível mais de 7 Milhões de franceses votarem em Marine Le Pen na 1ª volta das presidenciais de 2017? Ou mais de 10 Milhões na 2ª volta? Ou se quisermos um exemplo mais perto de casa, como é que 5.260 Açorianos (5.1%) acha que o melhor para a Região Autónoma é o partido Chega. E estas eleições foram há menos de 2 semanas.

Não tenho respostas, nem sequer sei bem o que é isto para além de um desabafo de um dia longo.

Mas sei que me cabe estar atento. Cabe-me, na medida do possível, combater os “Chega” desta vida. Espero e desejo que faça o mesmo.

Antes que seja tarde de mais.

Nota: Este artigo foi escrito ao longo de várias horas e os números referentes às eleições americanas apresentado no ínicio do post foram, obviamente, sendo actualizados ao longo do dia. O resultado final das eleições nos Estados listados pode ser muito diferente dos relatados.

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