Rendimento básico universal

Nos últimos meses tenho reflectido e conversado um pouco sobre este tema, mas com a notícia de abertura da primeira loja Amazon Go, decidi voltar ao assunto.

Primeiro duas explicações: O que é Amazon Go e o que é o rendimento básico universal?

Amazon Go: o que é?

Por defeito profissional – afinal eu trabalho para a Sonae – estamos muito atentos a tudo o que acontece no mundo do retalho. Cá dentro ou lá fora. E não temos problema nenhum em nos comparar com o que os maiores do mundo fazem por esse mundo fora.

No entanto, nos últimos anos temos assistido a um ataque de players não tradicionais em sectores de actividade que, normalmente, não têm presença.

Alguns exemplos.

A indústria de telemóveis, outrora dominada por empresas do norte da Europa – Nokia e Ericsson – foram completamente dizimadas por dois gigantes de TI – Apple e Google.
O antigo mercado de marcações de viagens e/ou férias, outrora controlado pelas agências de viagens tradicionais é hoje monopolizado pela Booking.com sem ter uma única loja aberta em alguma parte do mundo.
E o exemplo mais extremo, a Uber, a maior empresa de taxis do mundo, tem 6.700 funcionários (Abril 2016) e nem um único taxista. Ia escrever que não tem um único taxi, mas esta afirmação já não é verdadeira uma vez que em Agosto começaram uma pesquisa com carros autónomos, o que nos levará mais à frente à questão do rendimento universal.

Voltando à Amazon.

A Amazon abriu esta semana a primeira loja que os clientes podem entrar, providenciarem a sua identificação de conta da Amazon, pegarem nos produtos das prateleiras e sair. Sair sem passar pela caixa. Sem esperas. Sem filas. Sem pagar pelos produtos que levaram consigo.

Sem pagar não, pagam, mas o pagamento é automático na plataforma da Amazon assim que o cliente sai da loja.

 

 

Ao ver este vídeo do Youtube lembrei-me da questão da eliminação completa de postos de trabalho inteiros.

A pergunta que faço é: com peritos a dizerem que nos próximos anos, robots substituirão os humanos em centenas de milhar de trabalhos que são tradicionalmente realizados por estes, está o mundo preparado para não termos trabalho para toda a população?

Rendimento Básico Universal

Há uma corrente de opinião que acha que o Estado deve providenciar um rendimento incondicional aos seus cidadãos em adição a qualquer rendimento que tenham de qualquer outro lado. Em Junho último, a Suíça levou o tema a referendo. A ideia era providenciar um rendimento de 2.500 francos Suíços (cerca 2.000 €) a cada adulto e 625 francos Suíços (cerca de 580 €) a cada criança.

Sem qualquer suporte governamental e sem apoio de qualquer partido político suíço, a proposta conseguiu mesmo assim mais de 100.000 assinaturas, o suficiente para ser levada a referendo, mas sem detalhes de como o plano podia afectar o rendimento dos suíços, o mesmo foi rejeitado com 77% dos votos.

A ideia referendada na Suíça, já levou o governo da Finlândia a considerar um piloto para atribuir um rendimento incondicional a cerca de 8.000 pessoas de rendimentos mais baixo.

Mas porque estamos a falar desta necessidade?

Com o aumento da automação, da inteligência artificial, de machine learning e da capacidade computacional, o mundo como o conhecemos hoje, terminou.

Aliás, já hoje, a inteligência artificial e machine learning está presente em muitos aspectos do nosso quotidiano, mesmo sem nos apercebermos.

Os exemplos mais básicos são os sistemas de recomendações, seja do próximo filme que devemos ver no Netflix, seja das notícias relacionadas do Facebook, seja nos produtos sugeridos quando navega no site da Worten.

Para casos mais complexos, gosto de contar uma famosa história da Target.

A Target é o segundo maior retalhista americano e tem mais de 1.800 lojas. Como todos os grandes retalhistas usa os sistemas de informação para retirar aquela vantagem competitiva num mercado sobrecarregado. Um dia, o director de loja foi chamado porque um pai estava fulo. A Target tinha enviado cupões de desconto à filha adolescente e que ainda frequentava o secundário. Os cupões eram todos para artigos pré-mamã ou para artigos de crianças recém nascidas. O pai perguntava ao director se a Target estava a tentar que a filha fosse mãe antes de tempo. O director de loja desculpou-se e o pai foi embora. Uns dias mais tarde, o director de loja ligou ao pai para se desculpar novamente e foi surpreendido quando o pai o interrompeu e se desculpou. Afinal, a filha tinha tido umas actividades extra-curriculares e daria à luz uns meses mais tarde.

O que aconteceu foi que a Target tinha criado um algoritmo que, recebendo apenas conjuntos de artigos que os clientes compram, consegue prever com grande precisão quem são as clientes grávidas. Em consequência deste caso, a Target passou a esconder a eficiência dos seus algoritmos para não assustar os seus clientes.

E este tipo de tecnologia está a expandir-se rapidamente para o mundo físico.

A Uber já começou a testar os taxis 100% autónomos em Pittsburgh. Hoje, por questões legais e para afinação dos algoritmos, os taxis ainda têm um condutor, mas com participação nula no transporte dos passageiros. Daqui a uns anos, com a legislação apropriada e o aumento de eficiência dos algoritmos, cinco (!) milhões de condutores profissionais serão substituídos por carros autónomos.

Há dois meses, a Mercedes testou o seu camião autónomo em autoestrada na Alemanha, depois de receber licença especial para o fazer. E nem vou falar dos Tesla e o seu modo autopilot.

Em 2013, a Universidade de Oxford, publicou um estudo que prevê que 47% de todos os trabalhos do mundo serão realizados por robots ou usando inteligência artificial. Se este número não é suficientemente grande para vos assustar ou pelo menos para vos acordar, não sei o que será preciso.

Os mais cépticos dirão que a mesma coisa já aconteceu no passado. Que cavalos foram substituídos pelos carros. A revolução industrial aumentou a eficiência e a introdução de linhas de montagem por Ford, foi uma revolução igualmente marcante. É verdade que sim, mas foi uma revolução provocada principalmente pela simplificação de tarefas. Fomos substituindo tarefas que precisavam de artesãos ou especialistas por tarefas altamente complexas mas cada vez mais simples que podiam ser realizadas com menos especialização mesmo se usando mais pessoas.

O que assistimos hoje não é a substituição de pessoas por pessoas. O que assistimos hoje é a eliminação completa de actividades profissionais e a sua substituição por inteligência artificial que não precisa de descansar, não faz greve, não fica doente, não tem família e não exige ordenado.

Como é explicado no vídeo mais acima, se as pessoas ficam sem emprego, ficam sem rendimentos, logo não podem comprar bens e serviços. Logo não injectam dinheiro na economia. Logo, alguns dos serviços existentes proporcionados por pessoas ou por robots serão desnecessários.

Os políticos da união europeia já começaram a ponderar um imposto para os robots. Afinal, se estes vão roubar o trabalho das pessoas é justo que paguem imposto. Já eu acho uma má ideia. Queremos promover a adopção da automação de forma mais barata possível. Taxar os robots será a forma mais rápida de parar a inovação nesta área. Pior ainda, sem uma normalização dos impostos a nível mundial, taxar os robots e a inteligência artificial na Europa é receita para perdermos qualquer vantagem competitiva para os restantes países do mundo, nomeadamente os Estados Unidos e os gigantes asiáticos, com a China e o Japão à cabeça.

Então, qual é a receita?

Boa pergunta. Não tenho resposta.

Mas o mundo precisa de acordar para esta realidade e perceber o que quer fazer com 7 mil milhões de pessoas.

Porque não adianta nada uns milhões de pessoas terem todo o dinheiro do mundo, se 99.9% do mundo não tiver o mínimo para subsistir.

1 Comment

  1. Alberto Mendes says:

    Viva António,

    Boa reflexão sobre um tema muito interessante. Como também tenho pensado sobre esse tema deixo aqui a minha visão para tua consideração:
    Toda essa tecnologia que falas vai trazer maior riqueza absoluta para todos acompanhado da maior diferença entre ricos e pobres. Ou, dito de outra forma, haverá menos pobres, estes viverão melhor e teremos mais pessoas imensamente ricas. Para mim isto é positivo.
    Agora o que sustenta a minha visão: A máquina de lavar louça acabou com as lavadeiras. A retroescavadora deixou no desemprego milhares de operários de pá e pica. O camião, que sem motorista deixará milhares no desemprego, deixou na miséria os donos de carros de bois. As pessoas ajustaram-se. Inventaram novos negócios, novas ocupações. Há 20 anos o que era o data scientist ou um APP developer? Ou, se te quiseres focar em ocupações com necessidade de menos qualificações, um dogsitter ou um youtuber?
    Repara que a queda dos gigantes do telemóvel lançou muita gente no desemprego, mas como produto secundário dessa queda criou-se um novo mundo: o das APP’s onde milhares de pessoas todos os dias desenvolvem novo negócios.
    Como consequência dessa automação e aumento da produtividade a pobreza tem vindo a diminuir no mundo (http://www.worldbank.org/en/topic/poverty/overview).
    O que vai acontecer ao certo não sei mas será certamente bom para a generalidade das pessoas como todas as inovações até hoje.
    Sou um otimista .
    Agora a questão do rendimento básico universal: Pessoalmente sou favorável se funcionar como um imposto negativo (IRS ao contrário ) e se os serviços providos pelo estado forem revistos em conformidade, ( cortar o fornecimento direto do serviço e fornecer ao cidadão o valor respetivo para este escolher onde e como gastar).

    Obrigado pelo teu texto e por leres este comentário. Voltarei à tua página na busca food for thought.

    Abraço,

    Alberto Mendes

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