Democracia: o fim de um mito

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A democracia na Europa morreu. E, ironia das ironias, morreu no mesmo local onde nasceu.

Democracia, δημοκρατία em grego,  significa, o governo do povo [retirado da wikipedia, claro].

E o que é que o governo do povo grego fez nas ultimas duas semanas? Recusou-se a pagar uma dívida (impagável?), convocou o seu povo para se pronunciar sobre o que deveria fazer, foi mandatado, pelo seu povo, para mandar passear a Europa e o FMI – com tudo aquilo que isso significava para o povo grego – e no fim, mandou foder a decisão do povo e assinou um acordo para um novo memorando, com condições ainda piores do que os que os gregos tinham recusado em referendo. É possível que o governo grego tenha conseguido um acordo que coloca os gregos em melhores condições do que o que aconteceria se cumprisse com o que foi referendado? Claro que sim! Mas a voz do povo grego ouviu-se alto e claro: não a um acordo a qualquer custo.

Então, o que diz o acordo assinado no domingo? Tive o cuidado de o ir ler. Deixo aqui, no final deste artigo uma cópia integral do mesmo. Mas tem coisas espantosas, que referirei para que percebam como e por quem somos governados:

Given the need to rebuild trust with Greece, the Euro Summit welcomes the commitments of the Greek authorities to legislate without delay a first set of measures.

Autonomia do governo Grego ou do seu povo? Esqueçam…

carry out ambitious pension reforms and specify policies to fully compensate for the fiscal impact of the Constitutional Court ruling on the 2012 pension reform and to implement the zero deficit clause or mutually agreeable alternative measures by October 2015;

Autonomia do Tribunal Constitucional? Esquece. Tal como cá, eles (o TC) dizem que não, nós (os credores) arranjamos forma de contornar essas decisões inconstitucionais.

on energy markets, proceed with the privatisation of the electricity transmission network operator (ADMIE), unless replacement measures can be found that have equivalent effect on competition, as agreed by the Institutions;

Lá como cá, a receita é a mesma: privatizar.

On top of that, the Greek authorities shall take the following actions:

  • to develop a significantly scaled up privatisation programme with improved governance; valuable Greek assets will be transferred to an independent fund that will monetize the assets through privatisations and other means.

Privatiza! Privatiza tudo o que mexe. A seguir vai a ilha de Creta. Ah, e já agora, não deixes que sejam os políticos a privatizar as cenas. Cria aí uma comissão para privatizar cenas. A bem da verdade, na frase seguinte é indicado que este “fundo independente” deve ser gerido pelo governo grego sobre supervisão do Banco Central Europeu e do FMI.

E agora vem a cereja no topo do bolo (destaques meus):

The government needs to consult and agree with the Institutions on all draft legislation in relevant areas with adequate time before submitting it for public consultation or to Parliament

Como é que é? Eu vou traduzir para quem não está a ler direito:

O governo precisa de consultar e acordar com a Instituição em todos os projetos de legislação nos domínios mais relevantes com o tempo adequado antes de a submeter para consulta pública ou ao Parlamento.

A sério?

Ou seja, se o Governo quiser legislar em algo que a Comissão Europeia considere relevante – pode ser tudo, certo? –  tem que pedir aprovação prévia, mesmo antes de ser apresentada no seu parlamento ou colocada à disposição do seu povo para consulta.

Se a comissão não concordar com a alteração? Fuck democracy, temos pena! É isto, não é? 

Para finalizar e porque não somos todos anjinhos:

Não é segredo para ninguém, pelo menos hoje em dia, que a Grécia, alterou os seus documentos oficiais para forçar (comprar, seria a palavra mais adequada) a sua entrada no euro. De uma forma geral, não cumpria os critérios de adesão, principalmente a necessidade de um défice público inferior a 3%.
Foi um crime que deveria levar à cadeia os seus políticos da altura e que está a ter graves consequência, para a Grécia e para a Europa, como se vê.

O problema é que a Grécia não conseguiu esconder os seus números, sozinha. O governo grego de então, usou a Goldman Sachs para esconder os mais de 5 mil milhões de euros de défice. E quem trabalhava para a Goldman Sachs e tinha à sua responsabilidade todo o sector público europeu? Mario Draghi, o, hoje, todo poderoso presidente do Banco Central Europeu.

Claro que isto tudo é apenas coincidência.

Assim como é coincidência que Giacomo Draghi, o filho de Mário, trabalhe em Londres, para a Morgan Stanley como trader de taxas de juro.

Assim, como é coincidência o facto do governo grego ter cagado de alto para a escolha do seu povo, ter assinado um acordo pior que o proposto há umas semanas, contra a vontade expressa em urna e hoje estar a terminar uma reformulação completa afastando todos os ministros rebeldes que apareçam à frente do fantoche primeiro-ministro grego.

Cópia do documento final do acordo imposto à Grécia: pdf[1]