Banco Alimentar

Os poucos leitores regulares deste espaço saberão por ventura que, os 0.5% do meu IRS deste ano foi encaminhado para entrega ao Banco Alimentar. No entanto descobri por estes dias duas entrevistas de Isabel Jonet, presidente da mesma instituição. Na primeira, de Junho deste ano diz, entre outras coisas:

As pessoas passaram a achar que têm direito a todas as prestações sociais e dão-no como adquirido. Preferem até ir para o subsídio de desemprego do que ter um emprego, ainda que ele seja menos bem pago. Porque sabem que vão ter essa prestação no final do mês: ou o rendimento social de inserção ou o subsídio de desemprego. Ora, isso veio trazer alguma perversidade neste tipo de fórmulas, que são fórmulas de emergência e que deviam ser reduzidas ao máximo. Mas sobretudo para fazer com que este montante que é afectado a estas prestações sociais não atingisse níveis incomportáveis e insustentáveis para o Estado.

Termina dizendo:

Acho que o estado se mete demais em coisas em que não deve.

Na segunda entrevista, de há menos de 10 dias, anunciava:

Prefiro estas medidas agora anunciadas do que um novo acréscimo nos impostos, nomeadamente no IVA, porque poderia conduzir a uma maior desigualdade social.

Cara Drª Isabel Jonet, até ontem não sabia quem era. Não tenho especial orgulho de a ter conhecido nestas circunstâncias.

Ao contrário de muitos portugueses, a Drª incluída, eu sou a favor de um estado social. Acredito que é possível o estado assegurar alguns serviços como saúde, justiça e educação de forma marginalmente gratuita, para todos. Não devem ser um privilégio de alguns e algo inacessível para muitos.

Sendo o Banco Alimentar contra a Fome uma instituição em quem os Portugueses reconhecem valor, competência e esforço, é também uma instituição que tem o dever, se não mesmo a obrigação de conhecer melhor que ninguém as carências crescentes de um cada vez maior número de Portugueses, nestes momentos difíceis.

E estas declarações são, no meu entender inaceitáveis de alguém cuja missão é garantir “Um mundo, no qual todos os Homens, tenham garantido o direito à alimentação.“. Sim, fui ver ao site do Banco Alimentar…

Não me vou alongar muito mais, embora tivesse mais algumas coisas para lhe dizer. Presumo que nunca por aqui passará e também não virá mal ao mundo.

Deixe-me apenas terminar dizendo que, com estas entrevistas – e com uma outra de 2011 que descobri quando escrevia esta peça – perdeu duas coisas: futuras doações e futuras participações minhas em recolhas de alimentos organizadas pelo Banco Alimentar, pelo menos enquanto por lá andar.

Infelizmente não é a Drª quem mais perde – até porque já é presidente da Federação Europeia dos Bancos Alimentares contra a Fome, não é? – mas sim aqueles que diz servir. Mas a Drª não pode servir uma causa e ter acções ou discursos que sustentem o crescimento daquilo que visa combater.

Ou se calhar até pode e eu é que estou errado!