16 de Setembro: e agora?

Foto de Nuno Botelho, Semanário Expresso, retirada de bitaites.org

Pronto! O povo saiu à rua. Manifestou-se. Gritou palavras de ordem. Foi ordeiro. No final sentiu-se melhor.

Sentiu-se melhor porque viu que os dramas individuais de cada um afectam também os vizinhos. No sábado não houve qualquer divisão social. Não se viram jovens de um lado e reformados de outro. Ou desempregados versus intelectuais. Não. Vimos um povo de mão dada a querer lutar por um país melhor. A querer deixar aos seus filhos um país melhor do que aquele que têm hoje.

É verdade que nem todos sabiam contra o que estavam a protestar. Ou, se quisermos ser mais justos, nem todos estavam a protestar pelas mesmas razões. Mas isso não é necessariamente mau.

Na minha opinião há duas coisas distintas em cima da mesa: o governo em funções e os sacrifícios que esse mesmo governo pede ao seu povo para fazer por ele:

O governo

Penso já há algum tempo que Pedro Passos Coelho não tem unhas para tocar esta guitarra. O problema é que Seguro muito menos. A queda do governo, nesta altura será catastrófica para o país pois, apesar de tudo, precisamos do dinheiro da troika para financiar a actividade corrente. A alternativa passa por termos a função pública com ordenados em atraso, ou pior ainda a saída do Euro. O que fazer então? Não tenho grandes respostas às minhas próprias questões, mas a solução poderá passar pelo Presidente da República por muito apático ou ausente possa parecer nesta altura. Um governo de iniciativa presidencial com os dois maiores partidos a governar sobre o olhar atento do país e do Presidente, pode ser uma solução. Sem Coelho e muito provavelmente sem Seguro nem Portas. Por outro lado, foi isso que vimos na Grécia nos últimos meses, e a solução lá, tanto quanto nos é dado a saber, não melhorou muito – 13h/dia durante 6 dias por semana é o próximo passo para o escravo povo grego e é aquilo que nos espera num futuro não muito distante.

Os sacrifícios

Primeiro o disclaimer. Estamos nesta situação por culpa própria. Tivemos um aldrabão, mentiroso e corrupto a (des)governar o país durante 8 anos. Nesse período embarcamos em aventuras que não eram possíveis de realizar. Fizemos estradas que ninguém usa e hospitais que ninguém quer pagar. Salvamos bancos da bancarrota e que vendemos  por tuta e meia assumindo as suas dívidas. Temos governantes que assinaram contratos em nome do estado com empresas das quais hoje fazem parte do conselho de administração. Contractos que são quase impossíveis de rasgar. Veio a ajuda da troika e os sacrifícios obrigatórios.

Entretanto, na sexta-feira, dia 7, Pedro Passos Coelho lança uma bomba e vai ao teatro não sem antes passar pelo Facebook. É neste momento que perde o país. As medidas anunciadas na terça-feira passada, apesar de acertadas, objectivas e necessárias já ninguém as ouviu. Portugal já não quer austeridade. Nenhuma austeridade. Nem mesmo a necessária ou a obrigatória. A verdade é que não podemos fugir da mesma. Temos compromissos que temos que honrar.

Agora, só há uma forma de este governo, ou de qualquer outro governo, reconquistar o seu povo. Anunciar o início de investigações que visem trazer à justiça todos os políticos que “ajudaram” o país a chegar ao estado que está. Sejam políticos que compraram submarinos que não se aguentam em alto mar, sejam políticos que estão em Paris a tirar cursos de Filosofia  ou sejam políticos que estejam no conselho de administração de empresas cotadas no PSI 20 e com as quais o governo tem parcerias. Sejam políticos no activo ou políticos que passaram pela governação há 20 anos. Todos. Todos eles, qualquer que seja a sua cor partidária e sem qualquer excepção.

Todos e quaisquer um destes governantes ou ex-governante deve sentir que as decisões que tomaram enquanto responsáveis políticos não serviram apenas para encher os bolsos – os seus e os dos seus amigos. Devem ser os primeiros a temer que a justiça pode tardar mas deve chegar. A alternativa é a lei da selva que temos hoje imposta no país. A impunidade cada vez maior com que cada um dos nossos políticos – nacionais ou regionais – se governa há custa dos sacrifícios daqueles que eles dizem governar.

Antes de qualquer medida que tente remediar o mal que está feito, os governantes deste país devem olhar para o seu povo e perceber que os mesmos estão mesmo dispostos a sacrifícios. Que amam o país onde nasceram , habitam e trabalham. Mas não estão dispostos a que um conjunto de indivíduos lhes roube toda a esperança. E é só isso que eu, enquanto povo, preciso. Foi essencialmente isso que os portugueses, cada um à sua maneira, pediram no sábado: esperança!

Querem um exemplo do que não deve ser a política? Vejam aqui.