O Papão do FMI

Tenho andado particularmente irritado por estes dias…

Não é novidade para quem me conhece, já tenho essa fama há muito e já que a tenho, venha de lá o proveito também.

Vem isto a propósito devido ao facto de ontem a agência de ratings Fitch cortar mais uma vez os ditos a Portugal – eu sei que não tem nada a ver, mas apeteceu-me começar assim esta crónica…

Parece que descemos mais um degrau no dito cujo – já devíamos estar habituados – e abrimos a porta ao bicho papão chamado Fundo Monetário Internacional.

O que me deixa perplexo é a continuada política do medo que se tem vindo a instalar neste país. Ai, é o medo da agência de ratings, ai é o medo do FMI, ai é o medo de perder o emprego, ai é o medo de não sei que mais…

Vai daí e o que faz o nosso governo? Aproveita-se desse medo e toca de cortar nas liberdades e garantias que temos como verdadeiras.

O último exemplo chama-se liberalização do despedimento – sob o nome de facilidade – e baixa dos custos para despedir, como forma de reduzir as assimetrias com os contractos a prazo ou a recibos verdes. Ninguém quer saber se não se deveria fazer o contário – i.é, terminar com o trabalho precário a recibos verdes ou o trabalho a prazo sucessivo. ‘Bora lá a flexibilizar mais um bocado o mercado de trabalho em Portugal que o povo anda é com medo e deixa fazer tudo desde que não perca o trabalho que tem.

Numa nota lateral, ainda no princípio do mês Fernando Ulrich, presidente do BPI, defendia a liberalização do despedimento individual mas com o devido reforço da compensação financeira ao trabalhador. O que mudou desde essa entrevista?

Voltando ao tema, o período que vivemos neste momento é negro. Não há outra forma de o colocar. O FMI prepara-se para entrar no país em 2011 – provavelmente logo no primeiro trimestre – serão tomadas novas e mais drásticas medidas de austeridade – que linda palavra para dizer que vão foder outra vez os mesmos – o governo PS minoritário entretanto cai, lá para o verão serão marcadas eleições e Pedro Passos Coelho será eleito o salvador deste país sem rei nem roque.

O que ninguém percebe, ou faz por não perceber é que novas medidas de austeridade levam duas coisas essenciais:

  1. mais desemprego – o que faz aumentar a necessidade do estado de contribuir com prestações sociais – leia-se subsidio de desemprego;
  2. menos dinheiro no bolso – o que leva a diminuir o consumo com um perda de receitas em impostos directos e indirectos

Os dois factores juntos levam depois a que o risco de incumprimento de pagamento de empréstimos bancários – nomeadamente o crédito à habitação – seja maior o que leva a que as agências de ratings subam o mesmo alerta de incumprimento ou dificuldade de financiamento dos nossos bancos o que pode fazer subir o rating da dívida pública soberana por poder haver necessidade de apoio ao sistema bancário pelo estado, o que leva a que o estado se financie a custos mais altos, o que origina que novas medidas de austeridade sejam colocadas em cima da mesa…
Estão a ver onde quero chegar?

O que fazer então?

Como não sou perito nem economista – e não necessariamente nesta ordem – não tenho soluções milagrosas – nem ninguém mas pede.
Mas tenho opinião sobre o assunto e, apesar de ninguém ma pedir deixo aqui algumas ideias – sei que ninguém me lê, mas hoje, véspera de Natal apetece-me escrever um pouco…

Para começar devemos perceber o que significa entrar em incumprimento. Porque é tão importante para o país cumprir o défice? A resposta é simples: o país e o seu sistema financeiro – que têm responsabilidade de colocar dinheiro na mão das pessoas e das empresas – são obrigados a financiar-se a custos cada vez mais altos. Significa o fim de empréstimos bancários para compra de habitação a preços razoáveis e investimentos das empresas a preços proibidos.

Significa também que os bancos – que também têm dívida – podem entrar em risco de incumprimento – se as pessoas e as empresas não pagam o que devem os bancos não podem cumprir as suas obrigações. E com os nossos bancos a entrar em incumprimento a solução passa por o estado deixar falir os mesmos – ou salva-los mais uma vez e entrar o próprio estado em incumprimento. E se os deixar falir o que acontece? Os bancos a quem os nossos bancos devem dinheiro entram em incumprimento.
Estão a ver onde quero chegar?

De repente, tudo faz mais sentido.

De repente dá para perceber porque razão os mercados andam tão nervosos. É que o problema não é Portugal ou a Grécia. É a bola de neve que se pode gerar.

Na minha opinião a solução para o nosso problema é simples embora radical: saír do Euro. Ganhamos autonomia na gestão das taxas de juro e no peso da nossa moeda – que podemos desvalorizar.

O exemplo da Islândia é paradigmático. Enquanto na Irlanda o FMI insiste em salvar os bancos da falência, cortar o salário mínimo e reduzir ou eliminar benefícios aos desempregados – hello, hello, anyone… –  os islandeses optaram por manter o bem estar social optando por reduzir o valor da sua moeda e deixar entrar em falência o seu sistema bancário. Hoje a Islândia tem uma taxa de desemprego pouco superior a 7% – mesmo com a fuga de mão de obra qualificada e os efeitos negativos de erupção do vulcão – e a Irlanda já vai com quase 14% – and counting…

O que países como Portugal, Espanha, Grécia, Irlanda e porque não a Itália têm que fazer é sair do Euro. Deixar os alemães – que se financiam a 3% para revender a 7% a Portugal ou à Grécia – com a batata quente na mão e a tomar decisões rápidas para definitivamente tomar decisões de politica económica comum.

Prontos, para um não económico e não perito – Deus me livre – são umas ideias engraçadas – e parece que não sou o único.
Vamos lá ver o que nos reserva 2011 mas acredito que os próximos tempos não serão fáceis. Nada fáceis…

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