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As cigarras e as formigas

Miguel Macedo, é o Ministro da Administração Interna.

Bracarense, ex dirigente da JSD – já vos disse que ao contrário de outros pais eu não quero que os meus filhos sejam desportistas, ou médicos ou engenheiros, mas sim que se inscrevam numa jota? Qualquer jota desde que seja a JS ou a JSD, pois a possibilidade de se vir a governar no futuro – não confundir com governar o país – é enorme.

Mas adiante. Dizia eu, que Miguel Macedo é bracarense, ex JSD, ex vereador da CM Braga – concorreu em 1993 e 1997 contra Mesquita Machado, sendo derrotado das duas vezes – ex líder parlamentar do PSD e agora ministro. Brevemente, ex-ministro.

Dizia ele ontem que Portugal não pode ser um país de muitas cigarras e poucas formigas.

Já deu para perceber que é perito em ser ex alguma coisa. Tanto assim é que a declaração de ontem, já é (quase) ex hoje.

O que Miguel Macedo, desculpem, Dr. Miguel Macedo quis dizer é que o povo não pode continuar a manter estes políticos profissionais que não produzem nada ao longo de uma vida inteira. Levam-nos tudo, hipotecam o futuro do país em negócios ruinosos – alguém já ouviu falar em dívida odiosa? – que agora obrigam o país a pagar as dívidas privadas que alguns políticos fizeram questão de nacionalizar.

O povo – as formigas na palavras de Miguel Macedo – tem que trabalhar mais para manter as poucas cigarras.

Há gente que não tem vergonha na cara. Há gente que pensa que pode continuar a puxar o tapete. A esticar a corda. A pedir continuados sacrifícios.

Um dia em vez de termos estes políticos a governarem-se teremos algumas formigas a governar o país.

Um dia veremos as formigas deste país colocar os políticos corruptos as cigarras a contas com a justiça por aquilo que fizeram, e continuam a fazer, a este belo país.

Um dia as formigas deste país terão a sua pátria de volta. Ou pelo menos deixem-me sonhar.

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16 de Setembro: e agora?

Foto de Nuno Botelho, Semanário Expresso, retirada de bitaites.org

Pronto! O povo saiu à rua. Manifestou-se. Gritou palavras de ordem. Foi ordeiro. No final sentiu-se melhor.

Sentiu-se melhor porque viu que os dramas individuais de cada um afectam também os vizinhos. No sábado não houve qualquer divisão social. Não se viram jovens de um lado e reformados de outro. Ou desempregados versus intelectuais. Não. Vimos um povo de mão dada a querer lutar por um país melhor. A querer deixar aos seus filhos um país melhor do que aquele que têm hoje.

É verdade que nem todos sabiam contra o que estavam a protestar. Ou, se quisermos ser mais justos, nem todos estavam a protestar pelas mesmas razões. Mas isso não é necessariamente mau.

Na minha opinião há duas coisas distintas em cima da mesa: o governo em funções e os sacrifícios que esse mesmo governo pede ao seu povo para fazer por ele:

O governo

Penso já há algum tempo que Pedro Passos Coelho não tem unhas para tocar esta guitarra. O problema é que Seguro muito menos. A queda do governo, nesta altura será catastrófica para o país pois, apesar de tudo, precisamos do dinheiro da troika para financiar a actividade corrente. A alternativa passa por termos a função pública com ordenados em atraso, ou pior ainda a saída do Euro. O que fazer então? Não tenho grandes respostas às minhas próprias questões, mas a solução poderá passar pelo Presidente da República por muito apático ou ausente possa parecer nesta altura. Um governo de iniciativa presidencial com os dois maiores partidos a governar sobre o olhar atento do país e do Presidente, pode ser uma solução. Sem Coelho e muito provavelmente sem Seguro nem Portas. Por outro lado, foi isso que vimos na Grécia nos últimos meses, e a solução lá, tanto quanto nos é dado a saber, não melhorou muito – 13h/dia durante 6 dias por semana é o próximo passo para o escravo povo grego e é aquilo que nos espera num futuro não muito distante.

Os sacrifícios

Primeiro o disclaimer. Estamos nesta situação por culpa própria. Tivemos um aldrabão, mentiroso e corrupto a (des)governar o país durante 8 anos. Nesse período embarcamos em aventuras que não eram possíveis de realizar. Fizemos estradas que ninguém usa e hospitais que ninguém quer pagar. Salvamos bancos da bancarrota e que vendemos  por tuta e meia assumindo as suas dívidas. Temos governantes que assinaram contratos em nome do estado com empresas das quais hoje fazem parte do conselho de administração. Contractos que são quase impossíveis de rasgar. Veio a ajuda da troika e os sacrifícios obrigatórios.

Entretanto, na sexta-feira, dia 7, Pedro Passos Coelho lança uma bomba e vai ao teatro não sem antes passar pelo Facebook. É neste momento que perde o país. As medidas anunciadas na terça-feira passada, apesar de acertadas, objectivas e necessárias já ninguém as ouviu. Portugal já não quer austeridade. Nenhuma austeridade. Nem mesmo a necessária ou a obrigatória. A verdade é que não podemos fugir da mesma. Temos compromissos que temos que honrar.

Agora, só há uma forma de este governo, ou de qualquer outro governo, reconquistar o seu povo. Anunciar o início de investigações que visem trazer à justiça todos os políticos que “ajudaram” o país a chegar ao estado que está. Sejam políticos que compraram submarinos que não se aguentam em alto mar, sejam políticos que estão em Paris a tirar cursos de Filosofia  ou sejam políticos que estejam no conselho de administração de empresas cotadas no PSI 20 e com as quais o governo tem parcerias. Sejam políticos no activo ou políticos que passaram pela governação há 20 anos. Todos. Todos eles, qualquer que seja a sua cor partidária e sem qualquer excepção.

Todos e quaisquer um destes governantes ou ex-governante deve sentir que as decisões que tomaram enquanto responsáveis políticos não serviram apenas para encher os bolsos – os seus e os dos seus amigos. Devem ser os primeiros a temer que a justiça pode tardar mas deve chegar. A alternativa é a lei da selva que temos hoje imposta no país. A impunidade cada vez maior com que cada um dos nossos políticos – nacionais ou regionais – se governa há custa dos sacrifícios daqueles que eles dizem governar.

Antes de qualquer medida que tente remediar o mal que está feito, os governantes deste país devem olhar para o seu povo e perceber que os mesmos estão mesmo dispostos a sacrifícios. Que amam o país onde nasceram , habitam e trabalham. Mas não estão dispostos a que um conjunto de indivíduos lhes roube toda a esperança. E é só isso que eu, enquanto povo, preciso. Foi essencialmente isso que os portugueses, cada um à sua maneira, pediram no sábado: esperança!

Querem um exemplo do que não deve ser a política? Vejam aqui.

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À beira do abismo

11131136_CTRv4[1]imagem daqui

Não tem ainda um mês a ultima vez que Passos Coelho garantiu que Portugal não precisará de mais tempo nem pedirá mais dinheiro à troika.

Também na Grécia não seria preciso uma segunda ajuda e hoje, o governo de ocupação grego – colocado no poder pelo bloco central europeu e sem qualquer opinião ou consulta ao povo grego – já admite um terceiro. Na última quarta-feira, Dimitris Christolas, 77, suicidou-se em frente ao parlamento grego. A sua nota de suicido pode ser lida aqui.

Em Portugal, apesar das constantes garantias de Passos Coelho – em janeiro, fevereiro e março – a conjetura económica diz-nos que tal é uma inevitabilidade.

Em setembro de 2013, Portugal tem que pagar quase 10 mil milhões de euros em títulos da dívida pública. O dinheiro que temos vindo a receber da troika já não chegará. Significa que Portugal tem que ir aos mercados buscar esse dinheiro.

Acontece porem que os regulamentos do FMI determinam que esta instituição só possa libertar fundos no caso de existirem garantias de financiamento do país intervencionado pelo menos durante um ano. Antes de Setembro de 2012 o FMI vai ter de verificar se estas garantias existem ou não. Se o calendário for cumprido esta avaliação deverá ser feita na 4ª revisão do Programa da troica, em Junho de 2012. Faltam três meses.

Se a troica concluir em Junho próximo que não há garantias de “regresso ao mercado” antes de Setembro de 2012, o que é muito provável, o FMI condicionará a libertação das últimas tranches do empréstimo à negociação de um segundo programa – o tal que Krugman na sua visita a Portugal dizia que não deveríamos aceitar por nada deste mundo.

retirado daqui

Uma segunda ajuda a Portugal – que começa a ser preparada na comunicação social – será o prolongar da atual situação económica até, pelo menos 2018.

Estão a ver o atual memorando de entendimento? Acrescentem-lhe um novo com objetivos a 5 anos.

Por esta altura vale a pena recordar o rumo tomado pela Islândia. Em 2008 estavam na falência. Os três maiores bancos faliram no espaço de semanas levando consigo todo o sistema bancário. Ao contrário da Europa e dos Estados Unidos, os Islandeses fizeram algo impensável. Deixaram os seus bancos falir e deixaram os credores estrangeiros de mãos a abanar. Permitiram-se aquilo que nós, presos ao euro não podemos fazer. Deixaram a moeda enfraquecer, originando uma obrigatória subida da inflação – chegou ao 18.6% – mas aumentando as exportações e criando condições atrativas para o turismo.

Hoje, 3 anos depois, o desemprego está nuns aceitáveis 7% (Portugal chegou ao 15%), o turismo está a subir e a economia cresce.

Passaram um mau bocado? Certamente que sim.
Estão livres de problemas ou preocupações? Obviamente que não!

Mas têm uma luz ao fundo do túnel, coisa que nem gregos, portugueses, espanhóis, italianos ou irlandeses, podem dizer com segurança!

A confirmar-se uma segunda ajuda resta saber se os políticos deste país terão os colhões a coragem de escutar o povo e deixá-lo decidir sobre o futuro dos seus filhos e netos.

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Politiquices III

Eu prometo que é a ultima vez que falo sobre política nos próximos tempos:

Os impostos indirectos tratam todos pela mesma medida, tanto pobres como ricos, razão porque são, nesse aspecto, mais injustos. É essa, aliás, a razão porque eu nunca concordei em taxar cada vez mais os impostos indirectos, nomeadamente o IVA. Ele vale 20% para quem tem muito como para quem tem pouco“.

Pedro Passos Coelho, no livro “Mudar”, editado em 2010.

Se ainda vier a ser necessário algum ajustamento, a minha garantia é de que seria canalizado para os impostos sobre o consumo, e não para impostos sobre o rendimento das pessoas“.

Pedro Passos Coelho, ontem, 24 de Março de 2011, em Bruxelas.

Sabemos ao menos para o que vamos já que, ainda não foi eleito, e já não consegue manter a palavra…

visto no massa monetária

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Politiquices

Agora que o Governo inicia funções de gestão, vamos lá resumir o que se passou:

  • Há duas semanas – precisamente – Cavaco Silva arrasa o governo com o seu discurso de tomada de posse para novo – e final – mandato;
    • Pedir ao jovens “que se façam ouvir” e comunicar ao governo que os portugueses já não aguentam mais sacrifícios - quando ele tinha que saber que ainda vamos ter muito que penar – foi o começo do fim;
  • Logo no fim-de-semana seguinte, a geração à rasca junta-se com os seus iphones de 500€ e manifestam-se às centenas de milhar – alguns órgãos de comunicação social falam em 500 mil em todo o país;
  • Na semana seguinte – ou seja, a semana passada – o ministro das finanças apresenta em Bruxelas um novo PEC – o famoso PEC IV – sem antes garantir duas coisas essenciais:
    • Comunicação das medidas apresentadas ao Presidente da Republica;
    • Garantia de aprovação das mesmas na Assembleia da Republica.
  • Nenhuma das duas foi garantida abrindo feridas que se sabem agora serem inultrapassáveis;
  • De dia 18 até ontem, o Presidente da Republica, não teve tempo de chamar Pedro Passos Coelho e José Sócrates e viu-se ultrapassado;
  • Hoje, tal como anunciado, o PEC IV foi chumbado por toda a oposição – da direita à esquerda – não restando outro caminho ao Governo do que aquele que tomou – demitir-se o Primeiro Ministro.

E agora?

Agora é fácil. Vamos gastar 18 milhões de euros dos contribuintes em campanhas eleitorais e em Junho temos novo governo.

Seja quem for – Pedro Passos Coelho + Paulo Portas ou José Sócrates + ? – desejo que tenha mais sorte do que este que agora nos deixa.

A sorte dele será garantidamente o meu bem estar…

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Deputados e Deputadas

Anda por aí uma algazarra para que o governo reduza o número de deputados ao valor mínimo inscrito na Constituição Portuguesa – 180 deputados.

Convém lembrar que neste momento, o número de deputados com assento no parlamento está em 230, máximo permitido pelo artigo 148º da Constituição da República Portuguesa.

Como em tudo o que faço na vida, antes de seguir a carneirada, dou-me ao trabalho de tentar perceber o que significa reduzir 50 deputados no Parlamento.

Para além do óbvio – redução do custos em recursos humanos directos e indirectos – o que é que isso significa para a população em geral.

Distribuição de deputados com 230 lugares

Neste momento, a distribuição de deputados encontra-se distribuída da forma representada no gráfico de cima.

Alterando o número de deputados na AR de 230 para 180 obriga a redistribuir o número de deputados eleitos por cada círculo eleitoral – sabem que o país não vale todo o mesmo, não sabem? – e isso influencia directamente a distribuição de lugares pelos diferentes partidos.

Com excepção dos 4 mandatos para o circulo da imigração, só 2 distritos manteriam os mesmo lugares que hoje elegem – Portalegre manteria os actuais 2 e Bragança manteria os seus 3 deputados. Todos os outros círculos eleitorais perderiam representatividade. Em particular os distritos de Beja e Évora perderiam 33,3% dos deputados já que passariam dos actuais 3 para 2 deputados apenas.

Mas esta não é a principal consequência – acho que com isto vivemos nós bem.

Numa redução de 230 para 180 deputados, o mapa representativo na Assembleia mudava radicalmente.

PS + BE passariam de 113 deputados em 230 (lembro que a maioria precisa de 116 deputados) para 92 em 180 (em que a maioria obtém-se com 91 deputados).

E é precisamente aqui que eu quero chegar. É que o povo português no actual sistema político não tem quem o representa.

Estamos representados por partidos políticos que têm as suas agendas e são comandados pelo seu presidente. Os deputados, mais preocupados em agradar ao partido – pois disso depende a sua posição na próxima lista eleitoral – que ao círculo eleitoral que o elegeu.
Quando não estamos satisfeitos com determinado rumo só nos resta uma opção: mudar de partido político. E quando é que começa a responsabilização dos deputados e dos políticos?

Em vez de nos preocuparmos em reduzir o número de deputados, devemos isso sim é preocupar-mo-nos em eleger alguém que nos represente. Que tenha cara. Que tenha um telefone, um endereço de email e um nome. Para isso, devemos deixar de votar em partidos e passar a votar em pessoas – que podem e devem ser livres de se organizarem em partidos políticos mas que não deixam de poder ser responsabilizados pelos eleitores que os elegeram.

Dito assim, aposto que uma grande percentagem de portugueses estará de acordo comigo.
Se disser a seguir que esta medida é contra-producente com a redução de deputados já me caem todos em cima.

Devemos então passar de círculos eleitorais fechados para um modelo de voto preferencial ou no limite um sistema misto em que as listas nacionais são fechadas e um pequeno conjunto de círculos regionais eleitos através de voto preferencial.

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